sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Baden-Powell - O escuteiro que nunca quis ser herói

Criou o escutismo há 100 anos, depois de uma carreira militar que o levou à África do Sul, ao Afeganistão e aos Balcãs. O respeito pela natureza e pelos outros são duas das marcas do movimento. Baden-Powell nasceu há 150 anos.

A Quando fugia dos jogos de críquete para explorar o bosque que rodeava a conservadora Charterhouse School, Baden-Powell estava certamente longe de imaginar que seria um militar de sucesso ou que viria a fundar o escutismo, o maior movimento de juventude do mundo, que hoje tem 28 milhões de membros espalhados por mais de 200 países. O que queria ele quando era rapaz? O mesmo que queria aos 83 anos, antes de morrer: explorar a natureza, satisfazer a sua insaciável curiosidade, pintar, escrever, aprender para poder ensinar.
Robert Sthephenson Smyth Baden-Powell (B.P.), que mantém o título de Escuteiro-Chefe mundial, nasceu há 150 anos numa família privilegiada e teve uma educação rígida, mas rica. Nunca foi convencional, nem em criança nem como oficial do exército britânico no Ruanda ou no Afeganistão. Na escola, onde recebeu a alcunha de Guts (coragem) por não recusar desafios à sua destreza física, preferia o teatro e a mímica ao futebol.
As disciplinas de ciências e matemática eram facilmente trocadas pelo piano, o violino ou os cavalos. Este péssimo cozinheiro que nunca foi bom aluno e se divertia a seguir rastos de animais ou a fazer fogueiras sem que o fumo revelasse aos seus professores que estava uma vez mais escondido entre as árvores, acabou por não concluir, como seria de esperar, a
sua educação tipicamente vitoriana.

No exército por acaso
Contrariando a tradição familiar, B.P. não entrou para a Universidade de Oxford, onde o pai deu aulas de matemática.
Médico, teólogo, filósofo e astrónomo, o professor Baden-Powell, que morreu quando B.P. tinha três anos, recebia em casa alguns dos mais importantes físicos e matemáticos da época. Mais tarde, em casa do avô materno, um almirante da marinha, continuou a conviver com diversos intelectuais, como George Eliot, pseudónimo da escritora Mary Ann Evans, ou o historiador Thomas Carlyle. A todos fazia perguntas.

Recusado por Oxford - foi Lewis Carroll, o autor de Alice, quem o aconselhou a deixar de pensar numa vida académica -, B.P. optou pelo exército ao ver um anúncio de jornal. Pouco tempo depois estava a caminho da Índia, e daí para o Afeganistão. Rapidamente promovido na escala militar (aos 26 anos era capitão), B.P. criou com África uma relação muito especial.
Sem receio de criticar altas patentes - rejeitava os abusos de poder e denunciava os privilégios coloniais - e procurando conhecer as culturas locais, Baden-Powell fugia sempre que podia às formalidades do império britânico. Gostava de se misturar com as pessoas nas ruas e sentava-se muitas vezes a desenhar cenas
da vida quotidiana nos territórios em que prestava serviço militar (Gana, Ruanda, Balcãs, Malta, Itália e muitos outros).
Foi na África do Sul, na guerra contra os Boers (1899-1902) - descendentes de franceses e holandeses que queriam manter independentes da coroa as repúblicas do Transvaal e do Estado Livre de Orange -, que B.P. viria a transformar-se num herói nacional para os britânicos, ao defender durante 217 dias a cidade estratégica de Mafeking.
Para resistir ao cerco dos independentistas, criou um corpo de cadetes formado por 18 rapazes que tinham por missão passar mensagens, distribuir o correio e manter activos alguns postos de vigia. B.P. ensinou-lhes algumas técnicas dos batedores do exército ("scout" significa, para além de escuteiro, batedor) e eles mostraram-lhe que um grupo de jovens bem treinados pode fazer a diferença.
O primeiro acampamento
Quando regressou a Inglaterra, descobriu que havia uma espécie de culto à sua volta e rejeitou-o de imediato. Considerava que Mafeking não tinha sido uma guerra que merecesse tanta publicidade (os bombardeamentos paravam ao domingo porque os dois lados eram cristãos e B.P. trocava cartas com frequência com o comandante inimigo) e nunca quis ser visto como um herói. Mas a notoriedade ajudou-o a reunir apoiantes para a criação do Escutismo, em 1907, que começou por ser a resposta de B.P. aos graves problemas sociais - desemprego e subnutrição empurravam as crianças das classes operárias para violentos confrontos nas ruas - que Inglaterra enfrentava.
No primeiro acampamento na Ilha de Brownsea, perto de Londres, juntou 22
rapazes (nessa altura o escutismo era apenas para eles, hoje há também guias e a maioria das associações de escuteiros é mista) de várias classes sociais a quem ensinou muitas das técnicas que usara com o corpo de cadetes de Mafeking.
A partir desta experiência, e recorrendo também a pedagogos, B.P. criou um método que privilegia o contacto com a natureza, o desenvolvimento individual, a ajuda aos outros e a educação pelo jogo. "O treino de tipo militar destrói a individualidade e um dos nossos principais objectivos é desenvolver o carácter individual", escreveu no Escutismo para Rapazes (1908), a obra que lança as bases do movimento. "A nossa finalidade é fazer dos escuteiros amantes da natureza e do ar livre e não soldados de imitação."
Da sua educação rigorosa e da experiência militar, B.P. levou para o escutismo a necessidade de regras, a capacidade de observação, os conhecimentos de orientação e topografia e o desejo de educar para a paz: "A paz não pode ser garantida unicamente por interesses comerciais, alianças militares, desarmamento geral ou tratados recíprocos, a menos que o espírito da paz esteja presente na mente e na vontade de todos os povos. Isto é uma questão de educação."
Os cânticos e danças zulus - B.P. acabou por transformar em amigos alguns dos chefes Zulu que perseguiu em África - serviram-lhe de inspiração para muitos dos rituais que hoje existem no escutismo. Eles chamavam-lhe "lobo que nunca dorme" por estar sempre alerta. As iniciais do seu nome são, aliás, as do lema do próprio movimento escutista: Be Prepared (sempre pronto).
Depois da publicação do Escutismo para Rapazes, o movimento espalhou-se rapidamente. Até ao fim da vida, B.P. dedicou-se à sua divulgação, viajando pelo mundo. No Jamboree (encontro mundial) que este ano festeja o
centenário na ilha de Brownsea, esperam-se 50 mil escuteiros.

Autor de 30 livros e desenhador compulsivo, B.P. deixou aos seus escuteiros e às gerações que se seguiram, uma última mensagem para ser revelada depois da sua morte. Nela escreveu: "O melhor meio para alcançar a felicidade é contribuir para a felicidade dos outros."
Baden-Powell morreu em 1941 e recusou ser sepultado na Abadia de Westminster, como pretendia a coroa britânica. Preferiu a pequena localidade de Nyeri, no Quénia. Na lápide que marca a sua campa lê-se apenas "Robert Baden-Powell, Escuteiro-Chefe mundial". Por baixo foi desenhado um sinal de pista - que ainda hoje se usa - que significa "fui para casa".

Muitos acreditavam que o seu desaparecimento e a Segunda Guerra Mundial ditariam o fim do escutismo Enganaram-se.

Texto: http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?dt=20070222 (Público 22 Fevereiro de 2007)

Imagens : honneur.au.scoutisme.free.fr/monde/bp/bp.htm



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